Morre construtor de trios Orlando Tapajós, aos 85 anos - Tupi Martim

Resumo

domingo, 17 de junho de 2018

Morre construtor de trios Orlando Tapajós, aos 85 anos

Domingo, 17 de Junho de 2018

O construtor de trios elétricos Orlando Tapajós, 85 anos, morreu neste domingo (17). 

Seu Orlando, responsável por trios icônicos, como a Caetanave, estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Teresa de Lisieux, no Itaigara, desde segunda-feira (11), quando sofreu um infarto. O corpo do carnavalesco será enterrado na segunda-feira (18), no cemitério Jardim da Saudade, às 14h.

A informação da morte de Seu Orlando foi confirmada logo nas primeiras horas da manhã deste domingo pelo presidente da Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI), Paulo Leal. “A ABTI e toda comunidade carnavalesca está de luto e lamenta profundamente a perda do grande carnavalesco e ícone da história da Bahia e do Brasil. 

Estamos auxiliando a família em todos os procedimentos para o sepultamento e, em breve, informaremos o horário e local“, disse Leal, em nota divulgada pela assessoria do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar).

Além de ter sofrido um infarto, Seu Orlando estava com um quadro de infecção urinária, como explicou o filho dele, Orlandinho Tapajós, ao CORREIO, na quarta-feira (13). Já neste domingo, o neto mais velho do construtor de trios, Neto Tapajós, divulgou um texto em homenagem ao avô. Na mensagem, postada no Instagram, ao lado de uma foto, ele agradece ao avô por ter ensinado o que é “ser um Tapajós”. 

Confira o texto na íntegra 

"Hoje o meu dia está acabando de forma triste, mas consciente da luta, coragem e persistência deste guerreiro em viver. Jamais esquecerei a última lição que meu avô me ensinou, ainda no leito hospitalar: NUNCA DESISTA DE NADA E NEM DE NINGUÉM.

É de forma alegre que eu, o seu neto mais velho, sempre irei lembrar do senhor. Sendo sinônimo de carnaval, sendo um guerreiro, que falece hoje acreditando na vida, enfim sendo perseverante em tudo. Todas as suas conquistas são as nossas próprias conquistas meu carequinha.

Meu avô Orlando Tapajós, obrigado por tudo. Obrigado por ter me ensinado de forma simples o que é ser um “Tapajós”, pois o “Tapajós” sempre foi e continuará sendo apenas o senhor. Engraçado que sempre me perguntam no meu meio profissional: “Neto, como você consegue isso?”, “Neto, você não desiste por quê?” Etc etc... Pois bem, daí vem o alicerce da força e determinação da Família Tapajós.

A foto postada foi tirada no Carnaval 2018 e agora ele fica imortalizada como um dos últimos momentos de um dos maiores Carnavalescos que este Brasil já teve, agora o saudoso ORLANDO TAPAJÓS! Fisicamente morre a última lenda viva da verdadeira história do Carnaval da Bahia, mas o seu legado está perpetuado, quem conhece a história do Trio Elétrico, sabe a que me refiro. Um homem que nunca largou o Carnaval da Bahia mesmo quando o largaram.

Vai com Deus meu careca, Vai com Deus meu velho. Te Amo... te amarei sempre! 

#LUTO"

RELEMBRE A HISTÓRIA DE ORLANDO TAPAJÓS 

Uma das filhas de Seu Orlando, a pastora Shirley Almeida também usou o Instagram para se manifestar. Ela postou um versículo como legenda de uma foto do construtor de trios. "2 Timóteo 4: 7. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. #meuamor ♥️ #meuamigo ♥️ #meuheroi ♥️ #meupai ♥️ #OrlandoTapajós ♥️", publicou. 

O prefeito ACM Neto (DEM) lamentou a morte de Tapajós. “O Carnaval da Bahia e as festas populares de todo o Brasil ganharam uma nova dimensão com os trios elétricos e Orlando Tapajós foi um dos grandes responsáveis por esta transformação “, afirmou o prefeito. 

Neto também lembrou que a Prefeitura, na atual administração, construiu a Casa do Carnaval, espaço dedicado aos artistas e foliões que transformaram a folia de Salvador na maior festa popular do mundo.

“Lá (Casa do Carnaval) os visitantes podem ver cada detalhe de nossa festa e perceber a importância de Orlando Tapajós para o desenvolvimento de nossa festa. Nós resgatamos todo o trabalho que artistas como Orlando Tapajós fizeram para levar o Carnaval da Bahia para todo o mundo”, afirmou o prefeito. 

Em nota, ele expressou seus sentimentos à família e amigos de Tapajós. “Que Deus dê conforto aos músicos, artistas, amigos e, principalmente, aos familiares de Orlando Tapajós”, concluiu.

O governador Rui Costa (PT) também se manifestou após a morte do ícone do Carnaval da Bahia. “É com imenso pesar que recebo a notícia do falecimento de Orlando Tapajós, uma das personalidades baianas que mudaram a forma de se fazer Carnaval na Bahia e no Brasil. 

Quero me solidarizar, em meu nome, da primeira-dama e de todos os baianos, com os familiares e amigos de Orlando Tapajós, nesse momento de dor e sofrimento. Expresso meus sentimentos de luto e pesar pela perda de uma figura tão importante para a história do Carnaval baiano”, disse o governador por meio de nota.

Quem também lamentou a perda foi o presidente da Câmara Municipal de Salvador, o vereador Leo Prates (DEM). “A inventividade de Orlando Tapajós foi fundamental para a evolução do trio elétrico e ainda na criação da música trieletrizada, pois o seu trio gravou em 1969 o primeiro disco do gênero. Por tudo que fez pela Bahia e para o Carnaval de Salvador, seu nome já faz parte da nossa rica história”, afirmou.

O presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), Angelo Coronel (PSD), informou que irá protocolar, nesta segunda-feira (18), uma Moção de Pesar. “Se Dodô e Osmar criaram o trio elétrico - ‘invenção do Diabo que Deus abençoou’ - foi Orlando Tapajós quem o industrializou e o aperfeiçoou com tecnologia, inovação e uma criatividade extraordinária”, disse, por nota. 

Ele destacou que a Bahia ficou um pouco menos e menos criativa com a morte de Seu Orlando. “A Bahia perde na cultura musical, na inventividade e no empreendedorismo. 

Orlando, seu Tapajós, era um amigo especial. Levei-o muitas vezes para tocar em minha terra natal, Coração de Maria. E um dia, quando decidi ter um trio próprio, o Trio Coronel, foi ele quem o construiu. Era a minha ‘Coronave’, eu que fiquei marcado na minha adolescência pela inesquecível ‘Caetanave’. Orlando Tapajós era um gênio”, elogia Angelo Coronel.  

Dificuldades e benefício 

Em fevereiro deste ano, a Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI) concedeu um benefício mensal de R$ 6 mil ao construtor do trio elétrico.

A instituição se sensibilizou com a história do artista depois que o CORREIO publicou uma reportagem dias antes, no fim de janeiro, que mostrou que um dos maiores nomes do Carnaval de Salvador estava vivendo com R$ 900 por mês, em um apartamento de 30 m², no bairro do Imbuí. 

Orlando vivia com a terceira dos sete filhos que teve, ao longo de três casamentos. Foram mais de 60 Trios Tapajós – todos próprios. Foram pelo menos duas casas: uma na Pituba, com piscina e cinco quartos, e uma na praia de Itacimirim, em Camaçari, com nove suítes. 

“Eu ganhei tanto dinheiro e, no fim, fiquei sem nada. Pensava daquilo tudo não se acabar, mas se acabou”, refletiu Seu Orlando, em entrevista concedida ao CORREIO em janeiro deste ano, lembrando dos tempos áureos. 

Ele foi o maior responsável pelo trio elétrico que o Carnaval de Salvador conhece hoje. Foi quem criou a carroceria de metal, colocou banheiro, escadas e até elevador.

Em 2015, a Prefeitura de Salvador criou um circuito em homenagem a Orlando Tapajós, que vai do Clube Espanhol ao Farol da Barra, e funciona durante o pré-Carnaval. No Carnaval de 2018, Seu Orlando também foi homenageado, mas pela ABTI. 

O construtor de trios desfilou em cima do trio puxado por Armandinho, Dodô e Osmar durante o desfile do bloco Me Deixa À Vontade, no circuito do Campo Grande (Osmar). 

O trio

Seu Orlando virou ‘Tapajós’ em algum momento de 1956. Pouco antes do Carnaval, ele contou a história ao CORREIO. Na ocasião, lembrou de quando começou – ainda quando diretor do Flamenguinho, antigo clube de futebol do bairro de Periperi. Na época, dariam uma festa e Orlando decidiu contratar o trio Cinco Irmãos, que era ‘o 2º da Bahia’, criado logo após o de Dodô e 

Osmar. No entanto, no dia da festa, ninguém apareceu: nem trio, nem os Cinco Irmãos. Mais tarde, Seu Orlando descobriria que o pai dos irmãos era rival de um dos diretores do clube.

Assim, o universo deu um empurrãozinho. Revoltado, Orlando teve a ideia que mudaria sua vida. De repente, ele, que nunca tinha pensado em ter um trio elétrico na vida, decidiu que faria o seu próprio.

“Peguei o microfone e falei para o povo: vou fazer um trio para mim. O povo aplaudiu muito”, lembrou Seu Orlando, em entrevista ao CORREIO, em janeiro.  

Ele recorreu justamente a Dodô, que, em algum momento do passado, tinha dito que, se um dia ele quisesse, lhe ensinaria o ofício dos trios. Dodô indicou, então, com quem encomendar os instrumentos de profissão e onde comprar os outros artefatos. Aos poucos, começava a nascer o primeiro Trio Tapajós. 

O nome veio do pai. “Ele disse ‘bota Tapajós”, conta Seu Orlando, sem se recordar muito dos detalhes do motivo. Naquele momento, nem Orlando, nem seu pai faziam ideia de que o Tapajós daria origem a vários outros ‘jós’: Marajós, Valnejós... Todos queriam um Tapajós para chamar de seu. 

O Tapajós, então, foi o primeiro trio elétrico a percorrer o Brasil. Esteve em grandes eventos – que vão desde o Círio de Nazaré, em Belém (PA), até na abertura do Carnaval do Rio de Janeiro, antes mesmo das escolas de samba. 

Uma de suas obras mais memoráveis foi justamente a criação da Caetanave – o trio elétrico em forma de nave que homenageou Caetano Veloso, em 1972. 

A história da inspiração é famosa: Orlando viajara ao Rio para comprar material. No avião, leu uma revista que falava sobre o Concorde, um avião supersônico que foi produzido entre as décadas de 1960 e 1970. O impacto da imagem foi tão grande que ele decidiu que aquele seria seu próximo trio. 

Pegou a revista, levou ao banheiro e, discretamente, arrancou a página com a foto da nave. Guardou entre o pé e o solado do sapato. “Fiz o trio escondido, sem ninguém saber. Só faltava o nome”, recorda. 

O trio foi batizado justamente com a chegada de Caetano ao Brasil, depois de voltar do exilio. O próprio Caetano subiu ao palco com Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. “Eu estava com a maior tripulação”.

Cronologia

1950 - Dodô e Osmar criam o primeiro trio elétrico da história
1956 - Orlando, então diretor de um clube de futebol de Periperi, cria o Trio Tapajós. Ele viria a ficar conhecido como Orlando Tapajós 

1972 - Orlando Tapajós cria uma de suas invenções mais icônicas: a Caetanave, trio em forma de nave que homenageava Caetano Veloso, que voltará do exílio

1981 - Luiz Caldas, hoje Rei do Axé, encontra Tapajós em Itabuna. O cantor vem para Salvador e passa a liderar o Tapajós

1981 - Trio Tapajós toca na comemoração do título mundial do Flamengo, no Rio de Janeiro 

1994 - Segundo Tapajós, foi o ano em que fez o último de seus trios. O equipamento também foi vendido.

Informações: Correio

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